Auto-Iniciação: um passo à frente das polêmicas

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Há mais de vinte anos atrás, estava eu no começo do Caminho da Deusa e estudava sobre a questão da validade ou não da auto-iniciação, tema que sempre gerou e ainda gera conflitos enormes no mundo todo. O que vemos nas recentes discussões da internet do Brasil, poderemos encontrar reproduzido em qualquer parte do mundo: radicais de ambos os lados, muita gente que faz disso motivo de discriminação e das famosas witch wars.

Quando lia sobre o tema um dia no Witchvox me deparei com um texto de Ellen Cannon Reed, em que ela dizia já na década de 90 que era hora de parar com essas discussões discriminatórias e que a obrigação dos iniciados de covens e tradições era ORIENTAR e AJUDAR os que caminhavam na estrada da auto-iniciação, discutindo-se a sério, pois, PARÂMETROS PARA A AUTO-INICIAÇÃO. Esse texto da Ellen me fez pensar durante alguns anos, e eu nunca vi se essa discussão teve prosseguimento no Witchvox. Mas aquilo ficou na minha cabeça.

Em 2001, quando eu já era além de auto-iniciada, líder de um coven há alguns anos, e depois fui iniciada em minha primeira tradição formal, escrevi um texto simples na lista de discussão do “Templo da Deusa” elencando o que se poderia chamar “Parâmetros para Auto-Iniciação”. Não consegui encontrar meu texto originário, embora seja facílimo achá-lo ligeiramente modificado em meia dúzia de sites, e até livros, que o copiaram descaradamente. Mas isso não vem ao caso, o que importa é que hoje resolvi reescrevê-lo e talvez, com maior experiência e vivência, hoje eu produza um texto mais útil a todos.

Partindo-se do pressuposto que o ritual de iniciação em si não confere poderes ou transformações que a Deusa e o Deus já não tenham posto à disposição de uma determinada pessoa, e sabendo-se que a cerimônia iniciática é um rito de passagem, um marco de transformação, o que importa é saber COMO deve ser alguém para que legitimamente possa se arvorar em iniciado. Essa análise nos covens tradicionais é feita pelo Iniciador. Quando o caminhante é solitário, tem que ser feita por ele mesmo. Afinal, que diabos de diferença há entre o modo de ser de um iniciado em wicca e um não iniciado? Que saberes, que habilidades, que conhecimento se exige para avaliar se alguém pode legitimamente se iniciar em coven ou se auto-iniciar? Vou elencar alguns pontos básicos de coisas que precisam ser aprendidas e sabidas, ou modificadas, para que alguém possa se iniciar, ou se auto-iniciar. Como vocês vão perceber, o conteúdo do aprendizado deve ser o mesmo.


Parâmetros para avaliação de candidato à Iniciação

1. Conhecimento racional

1.1 O que é Wicca e Bruxaria e a diferença de outros caminhos mágicos e outras formas de neopaganismo.|
1.2 Definição de Wicca e variações possíveis dentro da religião – conteúdo mínimo para caracterizar um prática como wiccaniana. Dogmas wiccanianos
1.3 História da Bruxaria
1.4 Mitologia dos diversos panteões pagãos
1.5 Conhecimento básico para magia natural: ervas, cores, pedras, sons, perfumes, incensos, velas e seu uso magico.
1.6 Personalidades pagãs e sua contribuição para a bruxaria.
1.7 Conhecimento da fauna, flora e minerais de sua região.

2. Técnicas Mágicas

2.1 Estados alterados de consciência. Diversas formas de atingí-los.
2.2 Respiração, meditação.
2.3 Magia com os 4 elementos
2.4 Composição do “Eu Mágico” (nome, templo astral, aliados, etc.)
2.5 Treinamento em Visão, transferência de consciência, telepatia, sonhos lúcidos e outros fenômenos paranormais (cada uma dessas coisas deve ser compreendia para buscar seus próprios dons, ou seja, quais as modalidades em que você tem mais aptidão natural).
2.6 Mudança de forma (shapeshiting) e glamour.
2.7 Ataque e defesa mágica, criação de baterias, escudos, guardiões e seres magicamente criados.
2.8 Técnicas de cura, limpeza de ambientes, conhecimento da natureza em sua utilização mágica.
2.9 Horários e locais de poder, determinações mágicas.
2.10 Prática frequente de algum oráculo.


3. Ritualística

3.1 Conhecer toda a estrutura do círculo mágico e do ritual wiccaniano, bem como o papel dos Antigos e contatá-los.
3.2 Saber elaborar sabbats e esbats, com todas as características e compreender seu significado na terra em que você vive.
3.3 Conexão e trabalho com Deusas e Deuses e aliados mágicos.
3.4 Uso dos instrumentos e percepção de sua função simbólica.
3.5 Feitiços – tipos e variações possíveis.


4. Auto-Conhecimento

4.1 Conhecer seu corpo e seu funcionamento de acordo com os ciclos da Lua e do Sol.
4.2 Percepção dos Elementos no corpo.
4.3  Pesquisa e conexão com ancestrais, compreendendo seu papel no mundo como herdeiro dos dons deles.
4.4 Profunda capacidade de auto-transformação, visando continuo equilíbrio e busca de liberdade, compreendendo sua estrutura psicológica, condicionamentos, e libertando-se de comportamentos impostos. Aquisição de capacidade de compreender todos os seus processos emocionais e harmonizar-se.
4.5 Compreensão que o processo de auto-conhecimento é a base da formação do elo com os Deuses, porque conhecer a si mesmo é conhecer os Deuses, que são o Todo Universal.

5. Conexão, ética e Compromisso

5.1 Aprender a escutar os Deuses e deixar que eles conduzam sua vida.
5.2 Desenvolver a compaixão pelo Todo, valorizando a diversidade sem nenhum tipo de preconceito, sendo capaz de servir em nome dos Deuses, da maneira como você compreender esse serviço, o que muda ao longo da vida sacerdotal.
5.3 Honrar todos os seus compromissos assumidos com os Deuses ou em nome e testemunho deles.
5.4 Seguir os lineamentos éticos básicos da Wicca, compreendendo como funciona o retorno tríplice.
5.5 Perceber como os Deuses usam você como instrumento Deles no mundo, agindo como um Desperto, ou seja, alguém, que compreende o que faz e porque faz em nome dos Antigos.
5.6 Resolver fazer seu COMPROMISSO INICIÁTICO (declarar aos Deuses que os ama e deseja entregar sua vida a eles para ser Seu instrumento consciente no mundo) SABENDO QUE ELE MUDARÁ SUA VIDA PARA SEMPRE, e que desse compromisso não se tira férias, folga, nem se desiste. Ele é uma vocação e uma escolha de vida.

Bom com toda essa lista de afazeres e aprendizado, além da parte imensamente difícil que é o item da auto-transformação, dá para perceber que o que eu considero um auto-iniciado de verdade está muito longe das pessoas que fazem um ritual de meia hora achado num site, ou se “iniciam” às centenas em encontros de anime ou RPG. Esses não são auto–iniciados, são auto-iludidos. O mesmo se aplica às pessoas que romantizam e simplificam a Wicca como uma “religião livre, em que basta amar a todos” (o que os americanos chamam de “fluffy bunny wiccans”), a mesclam com o cristianismo ou outras coisas que querem continuar praticando e não sabem as bases da religião. Enfim, a esses desejo que um dia acordem, ao invés de auto-celebrarem a perpetuação de sua ignorância.

E quanto demora todo esse estudo e aprendizado sério para alguém poder se iniciar em coven ou se auto-iniciar? Varia de pessoa para pessoa, mas sinceramente, cada mais me convenço que do estado de um leigo total para o da iminente iniciação a pessoa leva em média 3 anos. É um tempo bem razoável, embora alguns levem mais, poucos levem menos. Iniciar-se mudará sua vida para sempre. Como diz minha irmã Naelyan Wyvern, enquanto você não faz seus votos sacerdotais, enquanto está na dedicação, é como o tempo em que você está subindo a escada de um tobogã. Você tem até o momento em que senta no tapetinho e dá o impulso para parar. Depois que você desce, não há mais como brecar o processo. Ou seja: se em algum momento de sua dedicação você achar que é demais para você, que não deseja uma vida de compromissos constantes, que quer algo mais light, então não se inicie. Seja pagão, curta seus rituais de vez em quando e seja feliz. Mas se o sacerdócio é o desejo do seu coração, siga em frente, sabendo de tudo que o espera e lembrando que o rito iniciático é apenas o COMEÇO DE UM CAMINHO SEM VOLTA, onde a cada ano suas lições serão maiores e mais exigentes, mas as recompensas também. Uma vida de devoção, amor e serviço à Deusa Tríplice e Seu Consorte.

Uma última observação: estes dias, escreveu na lista Templo da Deusa uma bruxa que diz que é praticante há diversos anos, mas nunca quis se auto-iniciar. Sobre isso, há uma observação a fazer: mesmo sendo feito da forma mais simples, sem pompa nenhuma, sem grandes cerimônias, o VOTO INICIÁTICO, OU SEJA, O MOMENTO EM QUE VOCÊ ENTREGA SUA VIDA AOS DEUSES EM SERVIÇO É ESSENCIAL. Essa é a principal finalidade do rito de iniciação: ser um marco do dia em que você fez, voluntariamente, esses votos. Os Deuses respeitam absolutamente nossa autonomia e nossa vontade, assim, SEM ESSES VOTOS ELES NÃO PODEM AGIR PLENAMENTE EM SUAS VIDAS E SEM ESSES VOTOS VOCÊ NÃO SERÁ UM INSTRUMENTO PLENO PARA ELES. Esta é a real utilidade da auto-iniciação e da iniciação em covens: marcar o início da tomada dos votos sacerdotais na bruxaria, dar aos Deuses pleno domínio dos seus destinos, consentindo em que Eles o usem como instrumento desperto no mundo. Por tudo isso, recomendo a essa bruxa, que já há tantos anos vive no caminho que faça sim, sem medo e sem preconceito, sua auto-iniciação, porque ela levará seu sacerdócio a novos patamares. É hora de parar de discutir bobagens e perfumaria. O que importa é: qual a qualidade do sacerdócio que estamos ofertando no altar dos Deuses? A origem desse sacerdócio não pode ser fonte de discriminação, se ele for real. Que os Antigos abençoem plenamente os que dançam juntos e os que dançam sós!

 

Por Mavesper Cy Ceridwen, bruxa e sacerdotisa wiccaniana há mais de 24 anos, militante em defesa do Estado laico e direitos humanos. Terapeuta de cristais, taróloga, teáloga, terapeuta xamânica. Atualmente mora em Brasília.
Texto escrito em 28 de agosto de 2012 – 13º RDea, ano do Retorno da Deusa.
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