Um conto de Inverno

Foi numa noite de Solstício de Inverno, quando a escuridão reinava soberana e o frio gelado soprava violentamente, cortando e dilacerando as últimas folhas verdes que inutilmente tentavam permanecer vivas. A neve cobria a terra com o manto branco da morte, mas mesmo ali, para aqueles que olhavam para o mundo com o olhar do brilho das estrelas, estava a Mãe: cada floco de neve desenhava uma de suas infinitas possibilidades.

“A morte guarda em si tanta vida quando a vida guarda em si a própria morte” – a Donzela riu-se de seu pensamento ao olhar para suas próprias vestes brancas, que eram a eterna promessa do renascimento. A Donzela olhou para grupo de meninas que aguardava, eno rosto de cada uma delas podia ver o brilho da Lua Cheia, que pairava no ápice do Céu com sua palidez brilhante, fazendo parecer que os flocos de neve que caiam eram a própria Lua que se desmanchava em bênçãos para sacralizar aquela noite sagrada. Não podia mais esperar, o momento havia chegado. A Donzela caminhou até o grupo de jovens meninas, vestidas com peles, e colocou sobre o rosto de cada uma delas uma máscara de loba. Entregou uma tocha a cada uma e, usando a chama de sua própria, as acendeu. Fez tudo isso em silêncio, pois sabia que o Mistério que elas conheceriam esta noite não podia ser explicado em palavras.

E a Donzela caminhou à frente carregando sua tocha de fogo brilhante, seguida pelo grupo de jovens donzelas pela noite. E elas caminharam contra o vento frio e cortante em direção à escuridão numa procissão silenciosa. Em seu percurso, o vento gelado soprou sobre elas e extinguiu o fogo de cada uma das tochas, permanecendo acesa apenas aquela carregada pela Donzela, que parou de caminhar quando chegaram aos pés de um velho pinheiro. A árvore antiga era grande e imponente, e mesmo coberta de neve, permanecia verde. Permanecia viva. E a Donzela conduziu o grupo de jovens ao redor do tronco, que de tão largo precisaria de muitas outras meninas para que pudessem contorna-lo por completo.

A Donzela seguiu a frente, e ao lado da árvore a avistou: Ela, vestida com um manto negro como a noite, salpicada de flocos de neve como o céu salpicado de estrelas. A Anciã repousava sentada aos pés do velho Pinheiro, esperando. Suas mãos repousavam sobre seu Ventre grávido que carregava o Menino Sol, a promessa de renovação que deveria retornar na noite escura para trilhar o caminho celeste mais uma vez. A Anciã sorriu para a Donzela, e em seus olhos escuros era possível ver toda a Sabedoria carregada por aquela que já havia passado por este mesmo momento tantas vezes. E a Donzela fincou sua tocha e ajoelhou-se ao lado da Anciã, em reverência por aquela que era a Senhora de Todos os Desígnios.

O clã de meninas lobas segurava suas tochas apagadas enquanto assistia a cena com um olhar de encanto, pois mesmo sem entender o que se passava, sabiam estar diante de um Mistério. Silenciosamente, semoveram para formar um Círculo ao redor das duas mulheres. E quando a Donzela ergueu seu olhar para a Lua Cheia, elas uivaram.

 

Uivaram para a noite e para as estrelas. Uivaram para a neve e para a Lua que pairava no céu. Com gritos cortantes que cruzavam o ar, as jovens lobas dançaram ao redor da Donzela e da Anciã, numa saudação profunda e reverente. E à medida que elas dançavam e uivavam, selvagens e animalescas sob a luz da Lua Cheia, o sangue de todas as mulheres ali reunidas esquentava com o velho calor do Sol que corria em suas veias. Foi então que uma matilha de lobas se aproximou, formando um segundo Círculo ao redor das jovens, e uniram-se aos uivos delas, saudando a Lua, saudando a Mãe de Toda a Vida.

A Anciã podia sentir a Criança em seu ventre respondendo ao chamado das Filhas da Lua e, respirando profundamente, sentiu o caminho entre os mundos abrir-se em seu Corpo para que a Criança pudesse nascer novamente. A Donzela, que a assitia, já podia avistar o Menino Sol que nascia do corpo da Velha. E foi assim, circulada pelas uivos das meninas lobas, iluminada pela tocha da Donzela e banhadapela Lua Cheia que chorava flocos de neve que a Anciã, conduzida pela Donzela, foi Mãe mais uma vez.

E a terra se iluminou com o brilho dourado da Criança da Promessa. E seu choro se fez ouvir, misturando-se aos uivos de meninas e lobas na noite mais escura. A Donzela, que o tinha nos braços, o enrolou em um manto dourado e o entregou à Mãe, que repousava sob o velho Pinheiro verde. O canto cessou, e o ar se encheu de novo com um silêncio profundo. E nele, a voz da Senhora se fez ouvir enquanto a Donzela abençoava cada uma das jovens garotas e acendia novamente suas tochas:

“Ouçam-me, pois eu sou Aquela que foi chamada pela humanidade de muitos nomes. Eu sou Diana, Losna, Cardea, Lucina e Danu. Eu sou Seucy, Hécate, Britomartis, Ísis e Umbrea. Eu sou a Donzela e a Velha, mas sou Aquela que nunca deixa de ser a Mãe. Eu sou a Deusa Branca cuja face é o brilho da Lua e que se veste com o manto da noite. Eu sou Aquela que traz ao mundo a Vida e quem sonha todos os universos, sou eu aquela que inspira a Morte e quem sopra a mortalha. Vocês que são minhas filhas noturnas, saibam que meu Corpo é o Caminho e o Portal por onde tudo passa para vir ao mundo e por onde toda a vida deve retornar. Meu ventre é o Caldeirão da Noite que mistura em seu caldo vermelho as infinitas possibilidades. E hoje, na mais escura das noites, ensino a vocês que nem mesmo a Neve e a Escuridão fazem morrer o brilho da Lua, e presenteio o mundo mais uma vez com meu Filho, a Criança da Promessa, para que todos se lembrem e celebrem minha promessa do Eterno Retorno, que vive no mundo pelo Ventre de cada Donzela que celebra meus Mistérios”.

A velha então ergueu o Menino Sol, apresentando-o para a Noite e as Estrelas, para a Terra e para os Quatro Ventos:

“Celebrem, pois nesta noite nasceu o Menino do Sol. Você, que é chamado de Hórus, Apolo, Lúcifer, Dianus e tantos outros nomes. A Criança que cumpre a Promessa, o Sol Invicto que se ergue coroado em dourado e que pulsa com o calor do coração da Mãe. Aquele que caminha pela Abóbada Celeste, renovando a Vida e despertando a terra, conduzindo a Dança Espiral mais uma vez. Ilumine o mundo, Filho meu, e deixe que sua Luz brilhe nas almas e nos corações daqueles que também renascem junto com você”.

 

Texto original por Flávio Lopes, bruxo, sacerdote wiccano, paulistano, amante de chocolate, de manhãs quentes, de abelhas e livros.
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