Wicca, uma religião de artesãos

Wicca significa dobrar, girar, moldar. Também chamada de “Craft” (do inglês, “Ofício”), o nome de nossa religião remete ao trabalho dos artesãos, que exige ao mesmo tempo a beleza, delicadeza e sutileza do trabalho mental inspirado, mas também a energia, força, persistência e disposição do trabalho físico intenso.

Ao usar mente e corpo para esculpir a matéria bruta, o artesão tem o poder de de transferir a beleza antes vista apenas com o olho da mente para a realidade material. Nós, como bruxos, também somos artesãos. Veja que o nosso principal instrumento mágico e ritualístico é o athame, uma faca. Mas ele não costuma ser usado para cortar objetos físicos. Então nos perguntamos: o que é que nós esculpimos?

Um bruxo é nada menos que um artesão da alma. Nossa Arte é um trabalho de refinamento de nossa própria personalidade, usada como matéria bruta, e que quando esculpida pode revelar a beleza de nossa essência oculta mais profunda – o brilho único de nossa centelha sagrada.

Moldamos Terra, Ar, Fogo e Água, e assim mudamos nosso corpo, mente, espírito e coração. O trabalho de um bruxo ao lado dos Deuses Antigos não é simplesmente cultua-los e servi-los, mas também, através do contato com eles, manifestar no mundo a essência divina que habita em nós. Isso não significa endeusar nossas características, como crianças mimadas que dizem: “eu sou assim e não preciso mudar, porque isso é sagrado”, mas um árduo trabalho de cortar, esculpir, martelar, aparar, lixar e polir nossa personalidade. Assim, moldamos nossa consciência, abrindo caminho para que o centro dela deixe de repousar simplesmente sobre quem pensamos que somos, para também se iluminar pela consciência da parte divina em nós. É por isso que como um caminho iniciático, a Wicca implica a morte – precisamos morrer para quem acreditamos ser, e assim deixar nosso eu mais profundo emergir. Esse é um trabalho de uma vida toda, cuja beleza não está no destino final, mas sim no processo. A Arte não é um caminho para os teimosos ou senhores da razão: é um Ofício para aqueles que estão dispostos a sofrer para passar por profundas transformações.

Esse é, na verdade, um dos perigos do Caminho: acreditar que essa consciência pode ser alcançada de maneira perpétua. Não somos uma religião de Verdades, e sim de Mistérios. Esse estado de consciência divino não deve ser visualizado como um trono sobre o qual podemos nos sentar e permanecer, mas como uma lanterna que carregamos nas mãos e que nos possibilita lançar uma luz diferente sobre o mundo, para que possamos perceber o que acontece ao nosso redor de um outro modo, com um olhar integrado à noção de Sagrado. É justamente isso que ele é: um ESTADO de consciência. E por isso, para nos aproximarmos gradativamente dele, a nossa religião tem a forma de um Culto de Mistérios, e nos fornece FERRAMENTAS para que possamos alcançar esse estado de consciência através da prática ritual. Os elementos na natureza, mitos, altares, meditações, danças, cânticos, incensos e rituais são nossas ferramentas, usadas “entre os mundos” dentro de nossos Círculos, e tem o poder de alterar nossa consciência, abrindo momentaneamente caminho para que o Mistério atue através de nós, lançando sua luz sobre nossa consciência alterada e nos permitindo um momento de iluminação. Esse nível de consciência não pode ser alcançado pela análise racional de nossa personalidade, embasada em teorias, mas sim através do ato simbólico ritualístico, que nos coloca em um estado de transcendência daquilo que acreditamos ser. A função de um ritual é, portanto, criar e sustentar um ESPAÇO VAZIO, que será preenchido pelo Mistério. De forma mais poética, dizemos que os Véus se erguem brevemente.

É por isso que uma bruxa é aquela que caminha entre os Mundos: os mundos da consciência humana e divina. Através de nossa Arte, experimentamos da natureza dos Deuses – não apenas de modo racional, acreditando na ideia de que somos seres divinos, mas sim pela experiência direta com os Deuses. E isso nunca poderá ser expresso em palavras, pois só pode ser vivenciado. Qualquer tentativa de racionalização desse acontecimento fará com que sua sacralidade desapareça.

É por isso que como uma religião, não podemos “seguir” a Wicca, mas sim PRATICÁ-LA. Ela é uma Arte, um Ofício, um modus operandi, a Grande Obra, um trabalho sagrado que não pode ser vivido apenas a nível intelectual.

Wicca não é uma religião para se acreditar. É uma religião para se viver.

Texto original por Flávio Lopes, bruxo, sacerdote wiccano, paulistano, amante de chocolate, de manhãs quentes, de abelhas e livros.

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