Melusine, divindade das águas de rios e fontes sagradas

Melusine (ou Melusina) pode ser considerada um espírito feminino das águas doces em rios e fontes sagradas.

Ligada à fertilidade, vingança e segredos, sua origem é obscura pois sua história recebeu muitas modificações na Idade Média, sendo que ela já foi referenciada como deusa celta, uma fada, ninfa, sereia e, hoje em dia, encontra-se como uma personagem de lendas e folclore europeus, retratada como um tipo de espírito das águas.

Geralmente representada como uma bela mulher que é uma serpente ou peixe da cintura para baixo, ao estilo das sereias. Algumas vezes, é também retratada com asas, duas caudas ou ambos e, por vezes, mencionada como sendo uma nixie, um espírito aquático do folclore Alemão.

Sua história pode ser vista como uma metáfora para a sexualidade e a dualidade contraditória da natureza feminina como vista através de olhos medievais.

Seu simbolismo de natureza dual também foi abordado na alquimia, que emprega a sirene/sereia como um emblema benevolente da iluminação – a sirene dos filósofos. Alquimicamente, as duas caudas da sereia representam a unidade – da terra e da água, do corpo e da alma – e a visão do Mercúrio Universal, a anima mundi que invade o filósofo e o faz ansiar por ela.

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Mitologia

Filha de Pressina, uma fada de água e com um homem mortal, o rei Elinas (ou o Rei Helmas), Melusina nem sempre foi uma criatura sereia/serpentina. De acordo com seu mito e lenda, ela recebeu essa condição depois que sua mãe descobriu o que Melusina fez com seu pai, o rei Elinas o rei Elinas.

O rei Elinas havia encontrado Pressina na “fontaine de la soif” (ou “fonte dos sedentos”) e se apaixonou por ela. Ele então pediu Pressina em casamento mas a fada concordou em casar-se com o rei sob a condição de que ele nunca entrar em suas câmaras durante o parto ou após ele, para que visse seus filhos.

Pouco depois do casamento ela ficou grávida e deu à luz três filhas Melusina, Melior e Plantina. O filho mais velho de Elinas (de um casamento anterior) insistiu para que ele fosse ver sua esposa e seus novos bebês. Pressina ficou tão triste por seu rei ter quebrado a promessa, que fugiu levando os bebês para uma ilha escondida, Cefalônia (ou Kefalonia, uma ilha grega).

Quando as filhas se tornam adolescentes, Pressina as levou para ver o reino de seu pai. Ela contou para as jovens sobre a promessa que seu pai quebrou e Melusine decide se vingar. Ela convence suas irmãs a ajudá-la a seqüestrar seu pai e aprisioná-lo dentro de uma montanha. Quando Pressina descobre o feito, ela fica muito chateada e pune Melusine, tornando-a uma criatura de meio peixe/serpente todos os sábados para o resto de sua vida.

Melusine se refugia na floresta até que um dia ela esbarra em Raymond, o Conde de Anjou (algumas histórias dizem que teriam sido o  Duque da Aquitânia), que estava muito angustiado por ter, acidentalmente, matado seu tio durante uma caça de javali. Não sabia o que fazer mas, depois de encontrar Melusine, ela prometeu-lhe que o ajudaria a obter dinheiro, fortuna e poder, às quais nunca poderia imaginar além de oferecer conselhos de como explicar a morte acidental do seu tio à família dele. A nova companheira que ele encontrou nela, ajudou a aliviar sua dor. De fato, ficou tão satisfeito com a ajuda de Melusine que pediu a ela para ser sua noiva. Ela concordou com uma condição, que ele não poderia vê-la em seu quarto aos sábados, não importasse o que acontecesse.

Algumas fontes contam que o conde Raymond se desviou de seu caminho, numa noite de luar, e viu três fadas dançando, sendo que a mais bela era Melusine. Ela era tão doce e gentil que ele se apaixonou loucamente por ela, e pediu-lhe que se casasse com ele.

Ele concordou com o pedido que considerou bobo e eles se casaram logo. Melusine o ajudou a ganhar poder no reino e a construir as cidades francesas de Poitou e Lusignan, onde Melusine se tornou a mãe da linhagem Lusignan. Ela até mesmo teve um castelo construído em Lusignan onde governou a terra e seu o seu povo com graça e amor.

Ao longo do tempo, o feliz casal teve muitos filhos (a maioria dos quais nasceu com uma deformidade de algum tipo). Mas Raymond começou a ser pressionado por membros da família sobre as estranhas atividades de sábado de Melusine. Em um ataque de ciúme (pensando que ela também poderia estar o enganando) ele espiou através do buraco da fechadura na porta para suas câmaras e a viu no banho. Ela parecia tão bonita como sempre da cintura para cima, mas da cintura para baixo seu corpo de peixe/serpente chapinhava na agua com uma cauda feroz. Raymond não podia acreditar em seus olhos, mas nunca mencionou isso a ninguém até que um de seus filhos cometeu um crime. Ele pensou que, como todos os seus filhos tinham nascido tortos, deve ter sido por causa de alguma coisa perversa que Melusine tinha feito e então a acusou de ser “Metade Serpente”. Melusine ficou muito perturbada não só por Raymond saber seu segredo e quebrar sua promessa, mas também por ter anunciado à todos do que ela realmente era. Alguns livros dizem que, por vergonha, Melusine se transformou em um dragão e voou para longe, enquanto outras fontes dizem que ela pulou pela janela em seu estado de peixe e nadou para o rio.

Dizia-se que ela visitava seus filhos em forma humana durante a noite, mas outras histórias afirmam que vê-la era um sinal de mau presságio, pois se você a visse voando e chorando isso significava uma morte iminente na terra.

Versão de Luxemburgo

Quando o conde Siegfried das Ardenas comprou os direitos feudais sobre Luxemburgo em 1963, seu nome foi ligado a versão local de Melusine, que possuía basicamente os mesmos dons mágicos que a ancestral dos Lusignan. A Melusine de Luxemburgo fez surgir o castelo de Bock por mágica na manhã após o casamento dela. Pelos termos do matrimônio, ela exigiu um dia de absoluta privacidade a cada semana. Infelizmente, Sigefroid, como os luxemburgueses o chamam, “não conseguiu resistir à tentação e num dos dias proibidos ele a espiou no banho e descobriu que ela era uma sereia. Quando ele soltou um grito de surpresa, Melusine percebeu-o e a banheira imediatamente afundou-se na rocha sólida, carregando-a com ela”.

Desde então é dito que Melusine surge brevemente na superfície a cada sete anos como uma bela mulher ou serpente, carregando uma pequena chave de ouro na boca. Quem quer que tire a chave dela a libertará e poderá tomá-la como sua noiva.

 

Versão Germânica

Em Baden, a Áustria, havia floresta chamada Stollenwald, e lá, sobre a montanha de Stollenberg, estão as ruínas de um velho castelo, o palácio Stauffenber. Neste palácio viveu um dia o filho de um magistrado que gostava de capturar pássaros. Um dia ele entrou na floresta para apanhar uma ave titmice. Lá ele ouviu uma bela voz e viu uma belíssima mulher, que gritou para ele:

– Resgata-me, resgata-me! Apenas me beije três vezes três!
– Quem é você? – Chamou o jovem e o espectro disse:

Melusine é o meu nome,
A filha do canto celestial!
No começo da nona hora,
Sem medo, beije minha boca e minhas bochechas,
Então serei redimida,
E ficarei contigo, meu amado noivo!

Olhando para o ser miraculoso mais de perto, o jovem viu que Melusine tinha um belo rosto, olhos azuis e cabelos loiros. Sua parte superior do corpo também era maravilhosamente proporcionada, mas não as mãos e os pés. Suas mãos não tinham dedos, pareciam pequenas bolsas abertas, e ela não tinha pés, mas sim um corpo de cobra. No entanto, o jovem sem medo deu seus primeiros três beijos. Ela expressou alegria com seu primeiro beijo, e então desapareceu.

Na manhã seguinte, o amante voltou e seguiu a canção sedutora até encontrá-la, ele viu que Melusine agora tinha asas. O corpo de cobra estava salpicado de verde e terminava com a cauda de um dragão. Mas os olhos e o rosto de emanavam beleza, e sua boca era tão sedutora, que ele foi dominado pelo desejo, e ele deu-lhe novamente três beijos. Ela estremeceu com luxúria e desejo, batendo as asas sobre sua cabeça.

Naquela noite, o jovem mal conseguia fechar os olhos. Todos os seus pensamentos estavam com a figura brilhante e linda. Antes do amanhecer, ele entrou no bosque e seguiu a doce voz cantando. Mas desta vez Melusine tinha a cabeça de um sapo, e o amante devia beijá-la como se nada tivesse acontecido. Mas, em vez disso, ele deu-lhe as costas e fugiu o mais rápido que pôde. Atrás dele, ele ouviu um som e gritos de angústia.

Ele nunca mais foi para a Montanha Stollenberg e acabou noivando outra menina que, embora não tão bela como Melusine, pelo menos não tinha cabeça de sapo e um corpo de cobra.

A festa de casamento no Palácio Stauffenberg estava pronta, e todos estavam comemorando, quando uma pequena rachadura se abriu no teto. Uma gota de orvalho caiu no prato, mas ninguém viu. E qualquer um que deu uma mordida na qual a gota caíra caiu morto. E de cima, uma pequena cauda de cobra surgiu através da rachadura no teto e aquele foi o fim da celebração do casamento.

Em outra ocasião Melusine apareceu a uma menina de um pastor e levou a moça até a montanha Stollenberg. Mostrando seus tesouros subterrâneos, disse à menina que seriam dela se pudesse lhe desencantar. A moça não conseguiu manter este segredo e o sacerdote a ameaçou com sanções da igreja se continuasse a comungar com o espectro. Isso silenciou a menina do pastor e o encanto não foi quebrado.

Uma árvore de abeto dupla que cresce a partir de uma única raiz ainda está perto do lugar que eles chamam de “as doze pedras”. É chamado “a árvore de Melusine.”.

Por causa desta lenda, na Baviera, o nome Melusina não se refere apenas a seres mágicos de água, mas também à montanha e à floresta.

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Registros históricos

Na história francesa, muitos membros da realeza de Charlemagne reivindicaram ter descendido da linhagem da família de Melusine. Na verdade, as famílias Plantagenet, Angevin e a Casa de Anjou e Vere ainda reivindicam linhagem que remontam à história de Melusine.

De acordo com o livro “A Serpente E O Cisne: A Noiva Animal No Folclore e Na Literatura”, o nome Melusine foi usado por D’Arras e Couldrette como uma abreviatura das palavras “Mere des Lusignan” ou “Mãe do Lusignans. Muitas outras derivações do nome Melusine foram sugeridas emparelhando a história de fadas com divindades greco-romanas e até origens celtas.

Outra origem do nome vem da latinização das palavras gregas, “Melas-Leuke” significando “Preto e Branco”. Sendo assim Melusine aquela que define a dupla natureza, significando que ela era humana e animal, boa e má, masculina e feminina. A parte masculina e feminina pode soar estranha mas, de acordo com as histórias, o fato de que ela era metade peixe ou metade serpente deu a idéia de sua metade superior era feminina, enquanto sua metade inferior era mais falica e masculina.

De acordo com levantamentos históricos franceses, provou-se ter existido de fato uma rainha armêna com o nome de Melisende (ou Melesende), cujo marido era Fulk V, Conde de Anjou. Há ainda uma história onde diz que o rei Richard I (Ricardo Coração de Leão) tinha feito comentários sobre seu antepassado Fulk III (avô de Fulk V) dizendo “nós vimos do diabo, e ao diabo nós retornaremos.” – querendo dizer que pelo fato da história de Melusine ter sido ligada ao mal ou amaldiçoada, a linhagem da família estava contaminada.

Mesmo antes do casamento de Fulk V e Melisende havia rumores de lendas da ascendência com uma fada mítica que lembrava a história de Melusine. Os nomes Melisende e Melusine certamente soam muito parecidos. Talvez o nome real de Melusine na história não tivesse sido conjurado por algumas gerações e, em seguida, mais tarde através de histórias passadas para as gerações seguintes os nomes de pessoas reais foram misturadas com os da lenda para criar uma genealogia tão antiga quanto a lenda.

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Locais de culto

As lendas de Melusine estão especialmente ligadas às áreas setentrionais, mais célticas, da Gália e dos Países Baixos mas há versões de seu mito na Albânia, em Chipre, na França, em Luxemburgo e na Alemanha.

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Curiosidade

Martinho Lutero, monge alemão responsável pela Reforma Protestante conhecia outra versão da história de Melusine, a qual conta em “Die Melusina zu Lucelberg” (Lucelberg na Silésia), a quem ele se refere várias vezes como um súcubo.

Johann Wolfgang von Goethe, escritor alemão, escreveu o conto “Die Neue Melusine” em 1807 e publicou-o como parte do seu livro Wilhelm Meisters Wanderjahre.

O dramaturgo austríaco Franz Grillparzer encenou o conto de Goethe e Felix Mendelssohn, um compositor alemão, criou uma abertura de concerto denominada “Das Märchen von der schönen Melusine” ou “O conto da bela Melusine” como sua obra nº 32.

Nos dias de hoje, Melusine está presente no logotipo da franquia de cafés Starbucks, sendo que a sereia foi escolhida como logotipo porque seus donos procuravam um tema náutico que capturasse a essência de Seattle, a cidade conhecida pelos velejadores e os portos marinhos na época da fundação da cafeteria.

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Parentesco:

  • Filha de Pressina, uma fada de água, e um homem mortal, o rei Elinas em algumas versões
  • Irmã de Melior e Plantina
  • Esposa de Raymond, o Conde de Anjou na versão francesa e de Siegfried nas versões de luxemburgo.
  • Mãe de diversas crianças (há referencias que cita, 7, 9 e 10 filhos) mas seus nomes são, na maioria desconhecidos..

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Deusas com os atributos semelhantes:

  • Mitologia Angolana: Kianda, rainha das dereias
  • Mitologia Babilônica: Oannes ou Adapa, um dos sete sábios enviados para civilizar os humanos
  • Mitologia Indiana: Matsyāṅganā
  • Mitologia iorubá: Yemojá ou Iemanjá, divindade da fertilidade associada a rios e desembocaduras
  • Mitologia Grega: Mixoparthenos, criatura híbrida com cauda de peixe dupla do Mar Negro.
  • Folclore europeu: Lorelei, uma sereia germânica
  • Folclore Japonês: Ningyo, as sereias nipônicas

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Guia rápido de Correspondências:

Invoque a Melusine para: fertilidade, transformações, segredos, ocultações
Animais: serpente, peixes e dragões
Face da Deusa: Mãe
Elemento: água
Planeta: Lua
Dia da semana: Segunda-feira
Símbolos: simbolos aquáticos, espirais, serpentes, peixes

Fontes:
http://whatdoeshistorysay.blogspot.com.br/2012/07/who-was-melusine-water-fairy-mermaid-or.html
http://www.pitt.edu/~dash/melusina.html
https://en.wikipedia.org/wiki/Melusine
http://www.gotmedieval.com/2010/08/the-other-starbucks-mermaid-cover-up.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Melusina
http://blogs.universal.org/bispomacedo/2015/11/17/a-polemica-do-copo-da-starbucks/
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